2009/03/08

Melódicos Desígnios:


Sejam bem-vindos à primeira de uma série de crónicas (não calendarizadas).


José Cid diz que ter nascido na Chamusca foi o facto que não o tornou mundialmente famoso. Mas mesmo assim, este homem que é visto pelas gerações mais novas como um bobo do panorama musical português é nele efectivamente uma das figuras mais importantes. José Cid, para além da sua rebeldia, do anarquismo de que é adepto, foi um dos grandes impulsionadores da música em Portugal, com participação em bandas rock, como intérprete e compositor no Festival da Canção (e da Eurovisão posteriormente) e pela sua irreverente carreira a solo.

José Cid, apesar de um feitio controverso e vincado, e de disparar verbalmente contra tudo o que mexe, é uma pessoa objectiva. Quando questionado pelos motivos de ter posado nu no início da década de 90, responde "Não posei nu, tinha um disco de vinil à frente. O meu número de fãs aumentaria muito se tivesse sido nu integral. Tenho um corpinho invejável". Porque não falar de um "Special-One" da música? José Cid teve a capacidade de trabalhar com a sua mordacidade, controvérsia e sentido de inovação trabalhar uma imagem que não se poderia propagar de outra forma. Convenhamos, José Cid não chama à atenção nem cativa pela imagem (isto de forma a agradar e gerar afecto, embora haja gostos...).

Se Rui Veloso é o pai do rock português, José Cid é indubitavelmente o avô. Juntamente com o Quarteto 1111, composto por outras figuras notáveis como Tozé Brito, Mike Sargeant, Miguel Artur da Silveira, Jorge e António Moniz Pereira (sendo que o grupo, numa fase mais avançada, adopta o nome Green Windows numa tentativa de internacionalização), formam umas das bandas mais bem sucedidas e completas musicalmente em Portugal. Basta referir que em 2005 uma editora lançou uma colectânea de 15 temas do grupo na Coreia do Sul. A sonoridade começou pelo Pop característico da década de 60, tendo evoluído para um Rock "pré-Beatles", até entrar por sonoridades mais progressivas e que impulsionaram José Cid como o músico e compositor mais original da época.

Depois do desmembramento do grupo, José Cid dá seguimento à sonoridade Experimental-Progressiva, e com influências de grupos como ELP, Yes, Gentle Giant, Triumvirat, lançando "10000 Anos Entre vénus e Marte", albúm que figura na lista dos 100 melhores albúns de Rock Progressivo de Sempre. O som do órgão de Cid marcava a melodia, com longos instrumentais e letras a envolverem a temática do espaço sideral e do apocalipse.

Desde então, José Cid entra na espiral da pimbalhada e do dinheiro fácil que certa música da poia dá aos artistas portugueses. Hits da adolescência, "Como o macaco gosta de banana" e "Pouco a Pouco (Favas com chouriço)" ligam-no a uma conotação muito pejorativa. Ainda bem que José Cid se arrependeu, mesmo depois de o mal estar feito, e muito embora sejam estas música que melhor caracterizam Cid nos dias de hoje, são as que lhe dão um certo carácter (que não corresponde ao que realmente é e ao brilhante músico que foi) por entre a juventude.

0 comentários:

Enviar um comentário