
Prossigo assim prestando homenagem a um nosso conterrâneo. Nascido em Coimbra no ano de 1925, descendente de uma longa linhagem de mestres da Guitarra Portuguesa, Carlos Paredes constituiu, sem dúvida, o expoente máximo da guitarra e da música portuguesa, fazendo juz tanto ao seu nome, como ao instrumento que representa. Expandindo-se nos anos após a Revolução dos Cravos, mas já com uma extensa carreira, ocultada pelos interesses confrontados nos Estado Novo, Paredes editou algumas das obras-primas da arte nacional, como o magnífico "Movimento Perpétuo", demonstração da sua genialidade e sensibilidade, ou a popular "Canção dos Verdes Anos", que tão bem retrata a nossa cidade de Coimbra, nos seus traços majestrais e no seu movimento, na sua vida, fazendo-nos recordar a negra batina, as ruas enegrecidas pelos anos, os imponentes mas subtis edifícios. Colaborou também com artistas de renome internacional, nomeadamente lendas do Jazz, tendo inclusivamente actuado em todos os cinco continentes. Com uma inigualável mestria, Carlos Paredes cria uma música que, sem abandonar a complexidade e a genialidade, tenta nunca se afastar das raízes populares, criando um elo entre a sua arte e a tradição pura, o povo português, e é nos seus ambientes que o artista encontra inspiração, Coimbra, que deixara aos 7 anos, e Lisboa, a grandiosa, a "sua" cidade, nos seus labirínticos becos e vielas, na sua magnificiência, na sua classe, na sua vida, nas pessoas que, como fantasmas, vão passando, nas conversas ocasionais, nos antiquados estabelecimentos, no passar do eléctrico, na calma e na serenidade do grande Tejo, no lento rumo do Cacilheiro que, passivamente, cruza as águas do rio e, principalmente, naquele alto e velho homem, de já grisalhos e desgrenhados cabelos, de tão característicos óculos, que, impávido e sereno, com incomparáveis olhos e com os seus "mil dedos", observa.
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